BRA-031: Herança fragmentada
Frederico Augusto de Castro Furtado Revista Ciência Hoje, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro enero 2006
Antes da aceleração da destruição da mata atlântica, que começou há cerca de 200 anos, as populações de mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia) possuíam grande variabilidade genética, com pelo menos 19 linhagens maternas (haplótipos). No entanto, o desmatamento teve efeito não só na vegetação, como também nesses animais, naturais do estado do Rio de Janeiro, onde hoje só existem seis dessas linhagens. Esse foi o resultado de uma pesquisa conduzida pela Associação Mico-leão-dourado e a Universidade Estadual Norte-Fluminense (Uenf).
O trabalho começou quando a geneticista norte-americana Lisa Forman, então do Instituto Smithsonian (Estados Unidos), constatou a baixa diversidade genética das populações desse animal. Isso motivou a bióloga Adriana Daudt Grativol, da Associação Mico-leão-dourado, a comparar, durante sua tese de mestrado, quatro populações selvagens desses primatas, localizadas em Búzios, Cabo Frio, Poço das Antas e Rio São João. Grativol descobriu que os micos tinham alto grau de estruturação em seus genes, ou seja, determinadas cópias (alelos) só estavam presentes em certas populações. "Diante dessa informação, resolvemos estudar se esse fenômeno fazia parte da história evolutiva desses animais ou se foi resultado da fragmentação de seu hábitat, a mata atlântica", conta a bióloga.
Linhagem materna
Para essa nova investigação, desenvolvida por Grativol em seu doutorado, a bióloga usou a técnica de DNA antigo, que permite extrair amostras genéticas de espécimes mortos, porém preservados. Ela visitou museus do Brasil e da Europa, coletando pedaços das almofadas digitais (parte inferior dos dedos) dos micos que faziam parte das coleções. A partir desse material, Grativol analisou o DNA das mitocôndrias -- as 'usinas de produção de energia' das células, que são herdadas apenas das mães --, e comparou com o DNA obtido das populações atuais. Ao todo, foram 140 amostras antigas e modernas.
A análise revelou que, dos 19 haplótipos originais, apenas seis restaram. "Isso representa uma perda de diversidade de aproximadamente 68%", ressalta a bióloga, que aponta a derrubada da mata atlântica no estado como a principal responsável pela situação. Entre as linhagens remanescentes, apenas uma, anteriormente natural de Sepetiba (RJ), foi preservada na população de cativeiro. Com a reintrodução desses animais em diferentes fragmentos de mata, esse haplótipo se encontra novamente na natureza.
Além de revelar a perda de diversidade dos micos-leões-dourados, o estudo também contribuiu diretamente para as atividades de conservação. "Os marcadores genéticos que descobrimos permitem identificar a procedência de um espécime, o que pode auxiliar a reintrodução de animais apreendidos na natureza", comenta Grativol, que pretende agora fazer um levantamento dos haplótipos dos micos mantidos em zoológicos no Brasil, pois acredita-se que os fundadores dessa população podem ser linhagens ainda não representadas no estudo.
(Box) Araras, papagaios e outros bichos
O mico-leão-dourado não é o único animal ameaçado que conta com um projeto para a sua conservação. O Refúgio Ecológico Caiman, no Mato Grosso do Sul, concentra três iniciativas que visam à proteção de espécies em perigo de extinção. Uma delas é o Projeto Arara Azul, criado pela bióloga Neiva Maria Robaldo Guedes, em 1990, e que visa ao manejo da população e da biodiversidade desse animal (Anodorhynchus hyacinthinus). O refúgio conta com um total de 124 ninhos, sendo 66 naturais e 58 artificiais. O local também faz parte dos 285 mil hectares (ha) que formam a maior área de proteção para a onça-pintada (Panthera onca) no Pantanal. O Projeto Onça Pintada atua na região desde 2002 implementando estratégias para preservar a espécie. O refúgio Caiman também apóia o Projeto Papagaio-verdadeiro, criado pela ecóloga Gláucia Seixas para avaliar o impacto das ações humanas sobre esse animal (Amazona aestiva) e entender sua biologia. O projeto monitora ovos, filhotes e dormitórios coletivos, bem como o padrão de atividade diárias e o uso dos recursos naturais para alimentação. Além dessas iniciativas, o refúgio abriga, desde 2004, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) com 5,6 mil ha, onde se encontram 40 espécies de mamíferos, 368 de aves, 15 de répteis, quatro de anfíbios e 21 de peixes.

