BDRA-09-Tesouro verde
Ângela Bastos Diário Catarinense junio 2007
Estudos para a criação de unidade de conservação no Morro do Caçador, implantação do Plano de Manejo da Estação Ecológica Carijós e adequação do Parque do Rio Vermelho são três iniciativas em andamento que devem garantir a preservação de importantes áreas na Ilha de Santa Catarina. A exuberância das espécies da fauna e flora sobre a área remanescente da Mata Atlântica no litoral catarinense oferece à Ilha um verdadeiro tesouro verde e justifica essas ações. Afinal, hoje, resta apenas 7% da área original de Mata Atlântica no litoral brasileiro.
Aves e mamíferos mantêm viva a floresta de Mata Atlântica na Ilha de Santa Catarina
Uma semente foi jogada sobre o solo da Ilha de Santa Catarina ainda marcado pela Operação Moeda Verde, que investiga denúncias de compra e venda de licenças ambientais na Capital. Três projetos em andamento tentam garantir a preservação de um pedaço remanescente da Mata Atlântica. As áreas localizam-se ao Norte, região ameaçada principalmente pela ocupação urbana descontrolada. Com 600 hectares, o Morro do Caçador abraça as localidades de Vargem Grande, Vargem do Bom Jesus, Muquém e Capivari. O topo fica 368 metros acima do nível do mar e surpreende já pelo nome:
– Queremos envolver a comunidade para rebatizá-lo. Esse nome, além de não ser reconhecido pelos moradores, não é inspirador para uma unidade de conservação – diz a bióloga Eloísa Neves Mendonça, do Grupo Pau Campeche, que coordena os estudos.
A denominação está nos documentos oficiais da prefeitura. Mestre em Biologia Vegetal pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Eloísa explica que a densa mata que cobre o morro é recente. Isso ocorre porque há 40 anos a agricultura ainda era desenvolvida nas encostas.
A presença de árvores centenárias, algumas com 1,50 metro de diâmetro, animou os pesquisadores. Figueiras, cedro, maria-mole e jequetibá foram localizadas. Uma das estrelas é a canela-sassafrás, em extinção, mas encontrada em estágio juvenil.
– É uma ótima notícia, prova que houve preservação e que a floresta se regenera pela presença de animais, como mamíferos e aves que distribuem as sementes principalmente através das fezes – explica a bióloga.
Uma raridade é a licopodiacia, semelhante a um pinheiro, hospedada sobre uma outra árvore.
– É a primeira vez que a espécie é registrada em SC – comemora Eloísa.
Os animais tornam mais bonito o lugar. Em extinção, o gavião-pombo-pequeno foi pela primeira vez encontrado em ambiente natural da Ilha. O gaviãotesoura e o gavião-bombachinha são migratórios. Usam a floresta para fazer ninhos. Das estimadas 150 espécies de bichos residentes, 138 já foram identificadas.
Além de abrigo, aves, como os tucanos, aproveitam o alimento farto. Bandos de macacos-prego, quatis, cachorros-do-mato (ou graxaim) e tamanduá-mirins foram fotografados próximos da casa onde são traçados os rumos do projeto.
O imóvel se localiza cerca de 600 metros acima da SC-401.
Mas a caça é uma ameaça. Tatus e quatis são os mais visados:
– A gente escuta os tiros de espingardas. A fumaça nos acampamentos dá o sinal da presença dos caçadores. Eloísa diz que a questão é cultural.
Ninguém depende da caça para sobreviver, mas existe ainda o gosto pelo abate de animais. O assunto é discutido em reuniões com as associações dos moradores para, além de conscientizá-los, fazer com que denunciem a prática.
Rio Vermelho
Distante cerca de 500 metros do asfalto, a nascente do Rio Vermelho serve como local de lazer para crianças da comunidade. Os mais antigos contam que seu nome foi inspirado na mudança de coloração de suas águas, resultado da decomposição de rochas que continham ferro.
Em dias de chuva, o rio ficava avermelhado ao longo do trajeto. Também as dunas, situadas acima, atraem a garotada para brincadeiras.
Antes de tocá-las, é preciso percorrer trilhas de Mata Atlântica. O visual compensa. Especialmente, se a intenção é atingir a Praia de Moçambique, após meia hora de caminhada.
A região encontra-se na Costa Leste da Ilha de Santa Catarina e se caracteriza como um rico habitat natural para inúmeras espécies da fauna e da flora do litoral catarinense. Em maio, depois de intensa discussão entre poder público, entidades ambientalistas e de pesquisa, foi apresentada a proposta de um decreto estadual para adequação do Parque Florestal do Rio Vermelho ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Proposta aceita, Leonel Pavan, governador em exercício no dia 22 de maio, assinou o decreto prevendo que 1,5 mil hectares localizados na costa Leste- Norte da Ilha fossem enquadrados na categoria parque estadual. Com isso, poderão ser atendidos os objetivos de preservação que envolvem a recomposição da mata nativa – hoje ocupada por pinheiros – e a realização de pesquisas.
– O enquadramento como parque estadual é um avanço. A medida permitirá a recomposição e a preservação da área – avalia o professor Francisco Ferreira, do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Ecologia e Desenho Urbano da Universidade Federal de Santa Catarina (Gipedu). Também envolvidos no Projeto Parque do Rio Vermelho estão o Instituto Lagoa Viva, autor da proposta, e a Associação de Moradores do Rio Vermelho. Juntas, diz o professor, implantarão um processo participativo de adequação da área ao SNUC e oferecerão uma base de planejamento para a criação de um plano de manejo para a unidade.
Único regularizado no Estado e transferido para a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fatma), o parque enfrenta problemas em suas áreas interna e externa.
A expansão urbana desordenada é o principal (estima-se em 50 mil moradores na área), assim como a falta de saneamento, o desmatamento no entorno e a especulação imobiliária. – O desejo maior é a conservação da biodiversidade – resume o professor da UFSC.
Da experiência com pinus à preservação
A Estação Florestal do Rio Vermelho foi criada em 1962, no governo Celso Ramos, com o objetivo de experimentar a aclimatação de pinus e identificar o desenvolvimento de espécies adaptáveis à região.
O Parque Florestal do Rio Vermelho foi criado em 1974, no governo Colombo Salles, para reservação da flora e fauna da região. Em 1998, o governador Paulo Afonso decretou o desmembramento de 38 hectares da área. O decreto foi revogado.
Em 1994, o governo estabeleceu que a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) seria a responsável pela administração do parque.
Nas últimas décadas, o governo de Santa Catarina tentou repassar à iniciativa privada terras públicas legalmente protegidas, como o Decreto nº 4.273 de abril de 2006, pelo qual a área de 14,6 milhões de metros quadrados do parque é transferida à empresa SC Parcerias, uma sociedade anônima.
O Decreto nº 4.273 foi revogado no final de 2006 por pressão de instituições lideradas pela Federação de Entidades Ecologistas Catarinense.Para acelerar o processo de regularização da área, o juiz Zenildo Bodnar, da Vara Ambiental de Florianópolis,promoveu audiência pública em março deste ano.
A Fatma, cumprindo decisão judicial, apresentou um cronograma de ações. Por fim, foi indicada a definição da categoria parque estadual, que deve cumprir os objetivos: “Preservação de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica, possibilitando a realização de pesquisas científicas e o desenvolvimento de atividades de educação e interpretação ambiental, de recreação em contato com a natureza e de turismo ecológico”.
De volta às origens
A ausência de um plano de manejo que regulamentasse o uso do Parque Florestal do Rio Vermelho resultou em uma série de problemas ambientais. As experiências para o cultivo de espécies de pinheiros apontaram para a necessidade de recuperação da cobertura vegetal original.
Não houve corte planejado dos pinus e muito menos a substituição por espécies nativas.
As alternativas tinham sido propostas em 1999, pelo Grupo de Pesquisa em Ecologia e Desenho Urbano (Gipedu), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). No ano passado, o Gipedu elaborou e submeteu idéias semelhantes em uma proposta de atuação em torno do Parque Florestal ao Ministério do Meio Ambiente, em parceria com o Instituto Lagoa Viva e a Associação de Moradores do Rio Vermelho. A pesquisa foi aprovada em outubro e o levantamento de informações começa a ser avaliado.
A partir da aprovação do projeto e da concessão do apoio financeiro pelo governo federal (R$ 70 mil), iniciam-se as atividades que devem durar oito meses. Alguns fatores devem ajudar, como o fato de não haver invasão na área demarcada. Atividades de lazer e de ecoturismo são permitidas nesse tipo de unidade de conservação.
Estação Carijós
Os 720 hectares da Estação Ecológica de Carijós, que englobam os manguezais do Saco Grande e de Ratones, chamam a atenção pela beleza e importância.
Agora, com a implementação efetiva do plano de manejo que vinha sendo elaborado desde 2003 com o Ibama, os mangues poderão ser ainda mais protegidos.
Foram destinados R$ 487 mil para que medidas sejam adotadas. O recurso é financiado pelo Ministério do Meio Ambiente por meio do Subprograma Projetos Demonstrativos (PDA) Mata Atlântica e está garantido para os próximos três anos. A implementação do plano de manejo, explica o biólogo coordenador do projeto, Ricardo Brochado Alves da Silva, inclui o conhecimento de questões locais, o estímulo ao envolvimento comunitário de instituições parcerias e o trabalho pela conservação ambiental na área da estação ecológica.
Estão incluídas as bacias hidrográficas do Rio Ratones e do Saco Grande, além de territórios contíguos – uma área equivalente a um terço do território da Ilha de Santa Catarina e ainda de terras de marinhas adjacentes.
– O planejamento para o trabalho está organizado em seis objetivos específicos, contemplando 14 metas a serem executadas com 54 atividades até 2009 diz o biólogo.
O projeto é executado pelo Instituto Carijós em parceria com o Ibama e Fórum Permanente das Associações Comunitárias da Bacia Hidrográfica do Rio Ratones.
De acordo com o biólogo, os recursos do PDA também serão utilizados para a realização de projetos de educação ambiental, em iniciativas como o Teatro de Arte-Educação, que trabalha com colégios da Barra do Sambaqui e de Ratones; e o Projeto Olho Mágico, que tem como proposta aproximar os alunos de escolas do entorno da reserva.
No Olho Mágico, são atendidos 175 alunos. Seis turmas de quatro escolas participam de atividades teóricas e práticas, como visitas à estação. Técnicos contratados fazem palestras durante as paradas pedagógicas. Os adultos também integram os fóruns.
O de Ratones é representado por 14 instituições, enquanto o do Saco Grande possui 13. Iniciativas de envolvimento comunitário, como a elaboração de um plano de ação para a conservação dos recursos pesqueiros do Rio Ratones, encontram-se em debate. Para isso, existe uma parceria com a Associação de Pescadores do Rio Ratones. O objetivo é chegar, no futuro, a um acordo de pesca. Também está prevista a implementação da Zona de Amortecimento da Estação de Carijós, a qual prevê regras para a ocupação das áreas localizadas no entorno, abrangendo toda a Baía Norte, que interage com a Reserva do Arvoredo e a área de proteção ambiental de Anhatomirim, e grande parte do Norte da Ilha. – Todo o ecossistema está ligado. Não existe como separar o caranguejo, a garça, o pescador – explica o biólogo.

