SEGUNDO LUGAR
BDRA-50-Sem a espada da dúvida
Manoel Dirceu Martins Revista Terra da Gente-Campinas, SP
Vitórias e frustrações de uma equipe de jovens pesquisadores, em 17 anos de trabalho para incluir o veado-mateiro-pequeno na lista de fauna nativa e conhecer seu verdadeiro estado de conservação
Recebi um telefonema do zoológico de Sorocaba, no interior de São Paulo, em 1990, pedindo para analisar um animal estranho, parecido com um veado-mateiro". O que se segue a esta frase - do professor José Maurício Barbanti Duarte, do departamento de Zootecnia da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Jaboticabal) - é uma longa história de lutas: a do cientista, pela elucidação do enigma e para convencer a comunidade científica mundial, e a do bicho, pela sobrevivência.
Os primeiros resultados são positivos: o pesquisador conseguiu identificar no 'animal estranho' uma nova espécie de cervídeo brasileiro - o veado-mateiro-pequeno (Mazama bororo) - e o bicho ganhou uma chance de defesa, ao se tornar conhecido.
"Fui ao zoológico e logo vi que não se tratava de um veado-mateiro (Mazama americana) e muito menos de um veado-catingueiro (Mazama gouazoubira). Era menor do que eles costumam ser, com cerca de 40 centímetros de altura, a pelagem mais avermelhada, mais escura no dorso, pescoço cinza nas laterais, manchas brancas na base da orelha, na maxila e na mandíbula. As patas dianteiras eram mais curtas que as das espécies conhecidas", conta Barbanti. Seu coração disparou: "Senti que podia estar diante de algo diferente".
Mesmo com a constatação dessas diferenças morfológicas do animal em relação aos outros cervídeos já descritos, o professor, que é geneticista, decidiu colher material para uma análise citogenética (estudo dos cromossomos). O exame de laboratório revelou outra diferença surpreendente: "O animal tinha 34 cromossomos, enquanto o veado-mateiro tem 52 cromossomos. Era uma prova definitiva. Você pode imaginar o efeito que a novidade causou em nós. Nessas horas, a cabeça do cientista vai a mil. Com certeza estávamos diante de uma espécie nova, mas ainda tínhamos pouco. O caminho até o reconhecimento estava todo à nossa frente".
Aí a universidade vai para o mato e a história fica boa: conversas com caçadores e palmiteiros da região Sul do Estado de São Paulo, onde o primeiro bicho foi encontrado, levam o professor a outros três exemplares em cativeiro, um deles, no Norte do Paraná. A descrição das características físicas e o estudo das variações cromossômicas são concluídos. O próximo passo é encontrar um representante da espécie em ambiente natural. Isso, sim, foi um desafio. Predados praticamente por todos os carnívoros, inclusive o homem, os cervídeos são bons em fugas: ariscos, desconfiados e rápidos.
"Hoje entendemos a dimensão da nossa dificuldade. O veado-mateiro-pequeno é mais exigente do que os 'primos' do mesmo gênero quanto ao hábitat. Os estudos feitos até agora indicam que ele só ocorre em áreas florestais primárias ou secundárias bem recuperadas, com alta dependência de ambientes nada ou pouco alterados, de vegetação densa. São animais noturnos, solitários e extremamente arredios", explica Barbanti. "O bicho usa os riachos como trilha para não deixar marcas nem cheiro. Se ele foge dos predadores, imagina da gente..."
Em 1996, os resultados dos primeiros estudos começam a ser publicados e a equipe monta um grande esquema para a localização de animais na natureza. Entra em cena o biólogo Alexandre Vogliotti, na época mestrando orientado por Barbanti. No Parque Estadual de Intervales (SP), ele instala várias armadilhas fotográficas e utiliza as iscas conhecidas: frutas, milho, pasta de amendoim. "Conseguimos muitas fotos, mas só pela imagem era impossível distinguir o veado-mateiro-pequeno do veado-mateiro, com o qual sempre foi confundido. Além disso, a fotografia não dá acesso ao material genético para a comprovação em laboratório", relata Vogliotti.
Era preciso mais esforço e inteligência. Os pesquisadores estudam, durante 2 anos, os hábitos dos animais cativos. E traçam novas estratégias de captura. "As fotografias e a observação de pegadas tinham nos mostrado trilhas que os animais usam com freqüência. Passamos a fazer esperas noturnas, no alto de árvores, na tentativa de flagrar o bicho e fazer a captura com o lançamento de rede (net gun) ou dardo anestésico. Foram muitas noites de vigília. Uma vez, passamos 5 noites em cima de uma árvore carregada de frutos, num frio de 2º C... e nada! O veado sentia o nosso cheiro e não se aproximava", continua o biólogo. "Num recurso extremo, chegamos a impregnar nossas roupas com fezes e urina dos veados mantidos em cativeiro no criadouro da Unesp, mas nem isso funcionou. Foi uma noite de frio, mau cheiro e, depois, risos, para rebater a decepção", lembra Barbanti.
Já se iam 4 anos. Alunos, mestres e doutores concluíam suas teses, tudo dentro do projeto. Então começam a montar uma armadilha de talas de bambu. "Era um curral de taquara com duas portas, que instalamos sobre a rota de deslocamento do animal. Mesmo com a valiosa ajuda de Aparecido Dias de Oliveira, nosso experiente e entusiasmado mateiro de Intervales, demoramos 3 meses para concluir a armadilha, combinando engenharia e conhecimento sobre comportamento animal", conta Vogliotti. "Instalávamos uma parte e nos afastávamos, para que o veado voltasse a usar a trilha. Quando ele se acostumava, trazíamos outra parte, e assim por diante, até conseguirmos o curral inteiro, sem espantar o bicho. Instalamos transmissores de rádio, para emitir sinais quando a armadilha desarmasse, e ficamos de tocaia".
A recompensa vem no dia 25 de junho de 2000. O primeiro veado-mateiro-pequeno selvagem é capturado: um macho adulto de 24 kg, saudável e esperto. "Era tudo o que a gente queria!", comemora Barbanti. "Disparamos vários estudos, exames de laboratório. Vamos para outro patamar, mais sério e cientificamente embasado. O veado recebe um rádio-transmissor e é devolvido para o seu ambiente, para podermos acompanhá-lo, conhecer seus hábitos". Mas, com o semblante mudado, o pesquisador acrescenta: "Acredita que, um mês depois da captura, o animal é abatido por uma onça?"
Quem trabalha com natureza deve suportar imprevistos. E aprender a insistir. Poucos meses depois, a armadilha funciona de novo e mais 2 'Mazaminhas' são capturados. A equipe mergulha num esforço investigativo. "No laboratório, conseguimos identificar marcadores de DNA para diferenciar cada uma das 5 espécies brasileiras do gênero Mazama, e assim temos a vantagem de poder trabalhar com material degradado como pele de animais mortos, pêlos e, principalmente, fezes".
O problema passa a ser localizar fezes na mata fechada. E, dessa vez, a solução conta com a ajuda de um detetive com faro infalível: Apolo, um cão da raça springer spaniel inglês, treinado no canil do 330 Batalhão da Polícia Militar de Barretos (SP). Após passar por um rigoroso controle sanitário, receber uma bateria de vacinas e fazer prevenção de parasitas no Hospital Veterinário da Unesp, Apolo multiplica por 10 a eficiência dos pesquisadores em campo.
O mapa da distribuição geográfica de Mazama bororo começa a ser esboçado em 2002, pelo zootecnista Renato Cheffer. Com Apolo, ele percorre unidades de conservação nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Verifica que a espécie se concentra na Mata Atlântica, exclusivamente nos estados de São Paulo, Paraná e extremo Norte de Santa Catarina. Mais uma etapa se completa.
Em 2003, a revista francesa Mammalia (International Journal of the Sistematics, Biology and Ecology of Mammals) publica um longo artigo, apresentando a espécie para a comunidade científica mundial. O objetivo de reconhecer a espécie parecia alcançado. Porém, Mazama bororo fica fora da lista oficial de espécies brasileiras ameaçadas de extinção, devido à resistência de uma minoria de pesquisadores.
"O argumento era uma formalidade científica: ainda não havia o chamado holótipo, animal no qual se baseia a descrição da espécie, cujo material deve ser depositado em museu", conta Barbanti. "Cheguei a escrever uma defesa, alegando que o material genético poderia ser considerado como depositado, uma vez que a constituição genética foi a base para a descrição da espécie. No entanto, tivemos de esperar um dos animais morrer, no cativeiro em Jaboticabal, para cumprir a última etapa: depositamos o esqueleto completo e a pele em 2004, no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP), na Capital paulista".
O ponto final na burocracia é, ao mesmo tempo, o 'nascimento' da espécie Mazama bororo. A partir daí, o veado-mateiro-pequeno passa a ser reconhecido pela comunidade científica mundial. Uma vitória de muito suor e neurônios, prêmio para a persistência e a dedicação ao trabalho de equipe de jovens cientistas brasileiros. Para o professor Maurício Barbanti, o benefício é todo da natureza, pois conhecer uma espécie é o primeiro passo para defendê-la.
Hoje, a equipe mantém 5 veados-mateiros-pequenos em cativeiro, 3 machos e 2 fêmeas. Com base nos levantamentos realizados, estima-se uma população total em ambiente natural de 4.500 indivíduos. Em outubro último, o Diário Oficial do Estado de São Paulo publicou a Lista Estadual de Animais Ameaçados de Extinção, onde, pela primeira vez, consta oficialmente Mazama bororo como espécie em risco. A proposta de inclusão na lista nacional já foi feita e aguarda apreciação. Maurício Barbanti resume: "A burocracia ainda é um entrave à conservação das espécies. Ninguém consegue inscrever um bicho desconhecido na lista de ameaçados. Agora, o veado-mateiro-pequeno tem as portas abertas para o futuro, com a proteção e a atenção que merece".
(BOX 1 ESPÉCIES SEM GALHADA)
No Brasil ocorrem 5 espécies conhecidas de veados cujos machos possuem chifres simples, sem ramificações. Os chifres podem cair após a estação reprodutiva, crescendo novamente no ano seguinte.
Veado-mateiro (Mazama americana)
Ocupa áreas de florestas densas e úmidas desde o México até a Argentina. Cor avermelhada com pescoço acinzentado e ventre branco. Pesa entre 30 e 40 kg. Apresenta chifres de até 20 cm.
Veado-mateiro-pequeno (Mazama bororo)
Restrito às florestas costeiras das serras do Mar e de Paranapiacaba, do Sul de São Paulo ao Norte de Santa Catarina, incluindo o Paraná. Coloração e aparência muito semelhantes às do veado-mateiro, mas com um tamanho menor (cerca de 25 a 30 kg).
Veado-mão-curta (Mazama nana)
Menor veado do País (15 kg), aparentemente associado às formações de Floresta Mista de Araucária da região Sul do Brasil, leste do Paraguai e nordeste da Argentina. Pelagem vermelha, sem ventre branco. Os chifres são bem curtos.
Veado-catingueiro (Mazama gouazoubira)
Ocupa florestas abertas, bordas de mata, capoeiras, cerrados e áreas alteradas pelo homem, incluindo canaviais, reflorestamentos de eucaliptos, pinheiros, etc. Ocorre ao Sul da Amazônia, estendendo-se do Brasil, Peru e Bolívia ao Paraguai, Argentina e Uruguai. Cor cinza ou marrom, de aspecto mais esguio que os anteriores, com uma faixa de pêlos avermelhados na parte traseira da coxa. Tem orelhas grandes e manchas claras acima dos olhos.
Veado-roxo (Mazama nemorivaga)
Semelhante ao veado-catingueiro, parece ocupar o mesmo tipo de ambiente deste, porém na região amazônica. Sua pelagem é mais amarelada e as orelhas são menores que as do catingueiro.
(BOX 2 - ESPÉCIES COM GALHADA)
No Brasil ocorrem 3 espécies conhecidas de cervídeos cujos machos apresentam chifres ramificados, também chamados de galhada. Os chifres podem cair após a estação reprodutiva, crescendo novamente no ano seguinte.
Cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus)
Maior espécie brasileira. Os machos adultos chegam a pesar 150 kg. Habita exclusivamente áreas inundáveis da região central da América do Sul. Tem coloração avermelhada, pernas pretas e chifres com várias pontas.
Veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus)
Habita áreas de vegetação aberta e campos no Cerrado, Pantanal e Pampas da Bolívia, Paraguai, Brasil, Argentina e Uruguai. Pelagem baia e chifres de três pontas, trocados praticamente todos os anos. Os machos adultos pesam em torno de 30 kg.
Veado-galheiro (Odocoileus virginianus)
Ocorre ao Norte do rio Amazonas e na porção Norte da Cordilheira dos Andes, em matas abertas. De coloração acinzentada, pesa cerca de 40 kg. Os chifres possuem um eixo principal frontal, com poucos ramos voltados para cima.

