TERCER LUGAR

BDRA-65-O colecionador de mariposas

Sérgio Adeodato   Revista Horizonte Geográfico - São Paulo, SP   octubre 2008

O pesquisador Vitor Becker é um dos maiores conhecedores desses insetos no mundo. Além de coletar espécies, ele compra florestas na Mata Atlântica baiana, disposto a  preservar o hábitat onde vivem

 No pedaço que restou da Mata Atlântica na Serra Bonita, município de Camacan, sul da Bahia, existe um acervo precioso guardado em centenas de gavetas. O lugar é como um santuário, mantido pelo pesquisador Vitor Becker, e sua mulher, a pedagoga Clemira Ordonez Souza. No recinto climatizado e livre de pragas estão preservadas nada menos que 25 mil espécies de mariposas, das 30 mil descritas até hoje pela ciência nas florestas tropicais do planeta. "É resultado de uma paixão", explica Becker. Reconhecida internacionalmente, esta é a maior coleção particular do gênero no mundo. Mais completas, apenas a do Museu de História Natural de Londres e a de Washington.

Entre as preciosidades está, por exemplo, a maior mariposa do mundo, a bruxa-negra, com seus tons de marrom para camuflagem nas árvores. Divide espaço com outras espécies raras minúsculas, como o bicho-mineiro-do-café, mariposa que tem quase o tamanho de uma mosca, encontrada nas regiões cafeeiras de toda a América. Becker abre cuidadosamente as gavetas e aponta orgulhoso: "Essa aqui é da Guatemala, e essa outra, mais escura, da Costa Rica". Há milhares de espécies brasileiras, algumas só existentes naquele pedaço da Mata Atlântica onde o cientista fez a sua residência. "Hoje, enviamos amostras para o exterior", conta. "Os pesquisadores não precisam mais cruzar o Atlântico para estudar as nossas mariposas."

Após 38 anos de buscas na mata, Becker conta que tem dois sonhos. O primeiro, já realizado, é abrir as portas do seu santuário para que os especialistas possam entender o comportamento dessas espécies e, assim, protegê-las. Para que esse sonho se tornasse realidade, ele lançou mão de suas economias e construiu uma confortável estrutura com salas de estudo, laboratórios, biblioteca e alojamento, cercado pelo verde da floresta que, por sua vez, é um imenso laboratório para pesquisas.

O segundo sonho do cientista tem a ver com a floresta. Ele gostaria de ajudar a salvar o ambiente natural das mariposas, ou seja, a Mata Atlântica, um dos biomas mais importantes do planeta. Não é por acaso que, com esse objetivo, tenha centrado forças na Serra Bonita. Por reunir matas de maior altitude, com clima ameno e alto grau de umidade, o lugar é um refúgio de biodiversidade e um reduto de mariposas. Estima-se que ali existam mais de 5 mil espécies. Sem contar outras 10 mil de borboletas, suas parentes mais próximas. Calcula-se que cerca de 20% ainda não foram registradas pela ciência.

 Refúgio de biodiversidade

A profusão de mariposas tem motivos. Na fase de lagarta, a maioria das espécies se alimenta de uma única ou de poucas espécies de plantas (como também ocorre com as borboletas). Portanto, quanto maior a variedade desses insetos lepidópteros em uma mata, maior é a diversidade vegetal. Estima-se que na Serra Bonita existam pelo menos 800 espécies de plantas - só de samambaias, já foram identificadas 200 espécies. Trata-se de um tipo de Mata Atlântica que, fora dessa região, só existe hoje nas serras do Mar e da Mantiqueira, centenas de quilômetros ao sul. Acredita-se que isso tenha acontecido porque o lugar tornou-se uma relíquia da última glaciação, quando muitas espécies de flora buscaram refúgio em locais de maior altitude.

Plantas e mariposas não são as únicas riquezas locais. Inventário da BirdLife International contabilizou ali pelo menos 180 espécies de aves, das quais, 59 são endêmicas, ou seja, só existentes nessa parte do mundo; e 27 correm risco de extinção, como o gravateiro-da-perna-rosa, recém-descoberto na mata. Em locais próximos, no sul da Bahia, em uma área equivalente a de um campo de futebol, foram encontradas 270 espécies de mamíferos e 454 de árvores, um recorde mundial.

É só andar nas trilhas para perceber a variedade da vida silvestre. Impressiona o número de beija-flores (20 diferentes espécies), que voam nas varandas do centro de pesquisa nos fins de tarde, ao lado dos laboratórios onde Becker trabalha. Ao amanhecer, pios e acordes dão a medida de uma floresta em plena atividade e estimulam uma caminhada mata adentro. Nos dois caminhos que cortam a reserva, avista-se uma vegetação unida, pontilhada de flores coloridas e habitada por seis espécies de primatas, como o ameaçado macaco-prego-do-peito-amarelo, além de onças-pardas, veados e tamanduás. "Lugar onde há muitas mariposas é um campo aberto para novos achados de flora e fauna", explica o pesquisador.

Becker descobriu o potencial da Serra Bonita no início da década de 1990, quando procurava um lugar para viver longe das grandes cidades, onde também pudesse estudar as mariposas que tanto aprecia. Ainda na universidade, ele iniciou a coleção que incluía borboletas, como trabalho final do curso de agronomia. Quando se formou, já tinha mil espécies guardadas - e queria mais. Decidiu, então, se especializar em entomologia, a ciência que estuda os insetos.

Depois de fazer o mestrado na Costa Rica, Becker comprou um carro velho e rodou durante quatro meses por todo o continente americano, para aumentar o acervo. E continuou a coleção mesmo durante os 30 anos dedicados ao estudo de pragas agrícolas como entomologista da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). O ciclo só se completou depois da aposentadoria.

 Terras preservadas

Para o cientista, não adianta manter uma coleção do porte da sua se não for feito nada para proteger os insetos na natureza. Para isso, segue uma rotina rigorosa de trabalho. Todos os dias, antes do sol raiar, sai na escuridão da floresta em busca das mariposas, utilizando luzes apropriadas para ofuscá-las. O trabalho de proteger a floresta estende-se em outra direção: na última década, começou a comprar terras com o objetivo de salvar as espécies. "Resolvi fazer a minha parte para evitar a destruição do hábitat das mariposas", conta.

Becker começou arrematando 1,5 mil árvores colocadas à venda por um proprietário rural disposto a derrubá-las e comercializar a madeira. Com o fundo de garantia, o cientista comprou tudo para mantê-las em pé. E mais tarde adquiriu a propriedade em que estavam. Ao longo dos anos, comprou novas áreas, disposto a tirá-las da mão dos madeireiros. Hoje somam 46 pequenas propriedades, compondo um mosaico de preservação, ou 1,2 mil hectares convertidos em Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN).

A área funciona como um escudo contra o desmatamento, hoje causado pelas plantações que substituíram o cacau, carro-chefe da economia regional até entrar em declínio provocado pela praga da vassoura-de-bruxa e os preços baixos do produto. Na cidade de Camacan, cujo auge ocorreu na fase do cacau, os sinais de decadência estão por toda parte - do comércio vazio aos casarões antigos abandonados. O pesquisador das mariposas diz que atualmente há filas de proprietários querendo vender suas terras. São pequenos lavradores sem recursos que possuem áreas de florestas marginais, inadequadas para a agricultura. Por essa razão, estão bem conservadas.

Seu projeto é preservar toda a área de 7,5 mil hectares da Serra Bonita por meio de um plano criativo: lotear a Mata Atlântica local para a instalação de um condomínio de reservas privadas, administrado por uma ONG - o Instituto Uiraçu (veja quadro). Conta, para isso, entre outros, com a ajuda do empresário americano Steve Koltes, dono de três RPPNs no local. "Preservar um lugar assim tão ameaçado é emocionante", diz Koltes, que considera esse modelo eficiente e sustentável. "É muito melhor conservar sendo dono de algo do que unicamente doar dinheiro para projetos ecológicos."

O objetivo maior é unir pedaços agora isolados da floresta para constituir o Corredor Central da Mata Atlântica, desafio perseguido por organizações de peso, como a Conservação Internacional e a SOS Mata Atlântica. O corredor seria uma forma de recompor uma faixa de vegetação nativa entre o Espírito Santo e o Recôncavo Baiano, essencial para a conservação da biodiversidade desse que é um dos biomas mais ameaçados do planeta. Para isso, "além de pesquisas, é preciso promover atividades econômicas não destrutivas na região", pondera Jean François Timmers, coordenador da força-tarefa do Ministério do Meio Ambiente para a criação e ampliação das unidades de conservação da floresta na Bahia.

Timmers sugere a retomada da valorização do cacau, cultivado à sombra da mata nativa, que, portanto, não é destruída. "O desafio é tornar essa cultura viável economicamente, diversificando os usos da mata associada", afirma. A medida é urgente porque apenas 6% da Mata Atlântica está protegida por lei na forma de parques e reservas. O exemplo da Serra Bonita, graças às mariposas, dá motivos de esperança.

 Em que elas são diferentes

Borboletas e mariposas pertencem à ordem dos lepidópteros, a segunda maior do reino animal, atrás apenas dos besouros. E o Brasil, por causa das características do seu clima quente, umidade e grande variedade de plantas, possui uma imensa coleção. Mais precisamente: 26 mil, sendo 3.500 de borboletas e o restante de mariposas.

Do ponto de vista técnico não há diferenças entre ambas. Elas são estruturais, por exemplo, as borboletas têm as antenas mais longas, de aparência lisa e de  extremidades arredondadas, enquanto as mariposas têm as antenas mais curtas, grossas e de aparência peluda. Além disso, as borboletas tendem a ser mais coloridas e, quando em repouso, guardam suas asas para cima. Quanto aos hábitos, as borboletas são em sua maioria diurnas, enquanto as mariposas são noturnas.

Um modelo de conservação

O uiraçu, também conhecido como gavião-real, maior ave de rapina do mundo, povoava, há 20 anos, a Serra Bonita, sul da Bahia. Hoje já não existe mais. Mas emprestou o nome ao instituto que coordena a salvação da biodiversidade daquele pedaço da Mata Atlântica. Criado em 2001, o instituto estabeleceu mecanismos para atrair novos proprietários rurais interessados em comprar terras para conservá-las. O modelo consiste na formação de um consórcio de florestas, transformadas em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) como se fosse um condomínio.

 O "síndico" seria o próprio instituto, responsável pela gestão e conservação das propriedades. Os compradores continuam donos das terras. Por esse sistema, não há limite de tamanho para as áreas adquiridas. Cada proprietário contribui com um valor fixo por hectare para compor o Fundo para Conservação da Serra Bonita. O recurso é aplicado no planejamento, vigia e criação de uma infra-estrutura básica, incluindo projetos de pesquisa e educação ambiental.

Atualmente, o conjunto de RPPNs soma 1.200 hectares de Mata Atlântica preservada. Mais 500 hectares estão sendo adquiridos com apoio da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais), com verba da loteria nacional da Holanda.